5 de maio de 2017

Mulheres na Montanha


TRAVESSIA ARAÇATUBA X MONTE CRISTA
PROVAVELMENTE A PRIMEIRA REALIZADA SÓ POR MULHERES

Já havia algum tempo que cada uma de nós tinha vontade de realizar esta travessia, a mais longa aqui da região sudeste do Paraná - nordeste de Santa Catarina; havia também a vontade de realizar uma travessia na Serra do Quiriri só com mulheres. A partir daí surgiu à ideia de reunir um grupo de montanhistas, com experiência e preparadas para encarar o desafio!

DADOS GERAIS

Período de realização: 29 de abril a 01 de maio de 2017
Percurso total: 60,7 km
Participantes da Travessia:
Cecilia Suarez (Córdoba/AR)
Greissy Caminski (Curitiba/PR)
Idce Sejas (Curitiba/PR)
Juliana Hoy (Curitiba/PR)
Lucimara Bertioti (Curitiba/PR)
Marina Sutilli (Joinville/SC)
Priscila Guimarães (Paranaguá/PR)
Yara de Mello (Joinville/SC)

Travessia Araçatuba - Monte Crista



BREVE RELATO

1° Dia – Araçatuba X Camping Comfloresta (18,5 km)

A travessia de 60,7 km pela Serra do Mar do sudeste do Paraná e nordeste de Santa Catarina começou no dia 29 de abril às 9h e 15 min, quando demos início a subida ao cume do morro Araçatuba (1.673m), na serra da Papanduva. O tempo estava colaborando, frio e seco, graças à atuação de uma massa polar, o tempo perfeito para subir uma montanha!
As 11h e 15 min atingimos o cume do Araçatuba, em duas horas de caminhada com cargueiras razoavelmente pesadas. Sendo este o primeiro cume brasileiro conquistado pela companheira argentina Cecilia. Este é o trecho de maior desnível em ascensão da travessia, são mais de 600 metros. Almoçamos e demos seguida a nossa jornada, onde rapidamente iniciamos a travessia do “inferno verde”, entre a serra do Araçatuba e o morro Baleia (1.556m), onde fica o vale das nascentes do rio Pinhal.  Este trajeto tem a mata bastante fechada, porém é possível observar uma picada e algumas pegadas humanas, em questão de uma hora vencemos este desafio. A essa altura já havíamos percebido que mais um grupo estava fazendo a travessia. Depois acabamos por encontra-los em diferentes locais ao longo dos dias.
Em seguida passamos pela encosta norte do morro Moréia (1.526m), que devido à forte insolação têm o solo bem seco, tornando o lugar agradável para caminhar. Quando contornamos a encosta e começamos a andar no sentido sul já avistamos as dezenas de estradas nas áreas de reflorestamento de pinus da Comfloresta. A partir dali caminhamos em torno de 9 km pelas estradas até chegarmos a um local de camping, logo após o pôr do sol (700 metros antes têm um ponto de água). Pernoitamos ali mesmo, onde pudemos deslumbrar um lindo céu estrelado e identificar algumas constelações, como o Cruzeiro do Sul, Órion e Cão Maior. Destaca-se que ainda antes de chegar ao acampamento, têm uma subida bastante forte, com desnível aproximado de 300 metros, que ao chegar ao final da estrada, continua num trecho com pedregulhos e mata baixa um pouco fechada, no topo encontramos novamente uma estrada, a qual descemos até o camping.


Travessia Araçatuba - Monte Crista
Travessia Araçatuba - Monte Crista

 2° Dia – Camping Comfloresta X Pedra do Lagarto (27,4 km)

Na manhã do segundo dia da travessia “tomamos café”, levantamos acampamento, e iniciamos a caminhada depois das 8h, ainda pelas estradas da Comfloresta. Sabíamos que este seria o dia com a maior quilometragem a ser percorrida. 
Logo que começamos a andar já iniciamos uma subida íngreme, com desnível aproximado de uns 300 metros, como no dia anterior. Esta subida deixava para trás o vale do rio Piraí-guaçu, passando em seguida ao lado da serra da Imbira, até atravessar o rio Negro, e adentrar no território do Estado de Santa Catarina. Depois de um longo trecho com visual não muito bonito, em meio a estradas erodidas e pinus, começamos a caminhar nos lindos campos de altitude, onde andamos até o Marco da Divisa, e lá paramos para lanchar. Ficaram para trás cerca de 14 km de estradas. 
Continuamos a caminhada, adentrando nos campos da Serra do Quiriri. Este sem dúvidas seria um dia com visual deslumbrante, porém, o tempo estava um tanto nebuloso, impossibilitando um visual 360° e aquelas “fotos de capa e perfil”, ainda assim conseguimos uns belos cliques. Logo um som de motor interrompeu o silêncio da montanha, eram cerca de quatro pessoas em quadriciclos, andando nos campos próximo ao marco :/
Passamos a 1° cerca, onde dizia que é proibida a entrada de pessoas estranhas, e naquele momento quase demos meia volta, já que não somos muito normais (rsrsrsrrs). Caminhamos um tanto e passamos pela 2° cerca, a partir dali a trilha ficou um pouco complicada, e acabamos por nos distanciar alguns metros da track, mas seguimos no rumo certo. Na encosta do Morro Klein (1.500m) paramos para almoçar, já que avistamos o Bradador (1.527m), e precisaríamos de energia para encarar a subida. Demos a volta no morro, para não subir direto ao cume e pegar tanta inclinação, já do outro lado aguardamos enquanto as companheiras Greissy, Juliana e Priscila foram ao cume do Bradador. 
Descemos a estrada em seguida, e como estávamos sem água resolvemos ir até a fazenda Quiriri. Lá, por sorte, encontramos um grupo de amigos montanhistas chamado “Brasão”. Ofereceram-nos churrasco, pão, barras de cereais, chocolate, e assim nos reabastecemos para a descida até a Pedra do Lagarto (1.340m).  Os companheiros foram muito parceiros, e só temos a agradecer. 
Infelizmente, neste ponto perdemos a companhia de uma das integrantes da travessia, a Lucimara, que estava sentindo fortes dores no joelho. Foi uma perda não tê-la conosco até o final da empreitada, mas não vale a pena se lesionar, haverá outras possibilidades. Valew guerreira! A Lu retornou para cidade de carona a partir da fazenda.
Dali em diante seguimos caminhada, agora éramos sete. A trilha neste trecho entre a fazenda e o Lagarto estava bem batida, com pegadas de cavalo. Próximo ao Morro dos Alemães (1.363m), demos uma pequena desviada na trilha em sentido ao cume, e o track acabou por dar em lugar nenhum (descer o vale e subir a encosta cortando caminho), então retornamos para a trilha original, e logo chegamos na Pedra do Lagarto. Lá conseguimos tirar algumas fotos antes de o sol se pôr, tinha uma galera acampada ali próximo aos pontos de água, descemos mais um pouco e acampamos em um desses pontos, ao lado do rio Três Barras, bem próximo a uma de suas nascentes. 

Travessia Araçatuba - Monte Crista


3° Dia – Pedra do Lagarto X Monte Crista (14,8 km)

O terceiro dia amanheceu bem fechado, e a noite inclusive rolou um chuvisco. Mas ao longo das horas o tempo foi abrindo um pouco, o que permitiu algumas “janelas” para apreciação da paisagem. Próximo às 9h deixamos o camping e partimos sentido Monte Crista. Logo no início da caminhada, após o morro do Totem (1.260m) passamos reto na trilha original uns 200 metros, ao invés de virar à esquerda e começar a descer. O trecho ali está muito batido com pegadas de cavalo, o que causou a confusão. Encontramos a trilha correta e seguimos adiante, passamos o Morro do Jesuíta (1.125m), e a partir da cabeluda começamos a encontrar bastante gente na trilha, assim como papel higiênico jogado pelo chão, e fogueiras para todos os lados. Por outro lado, avistamos os primeiros degraus do caminho histórico de pedras Três Barras. 
La no platô 900, a companheira Marina aguardou enquanto nós fomos até o cume do Monte Crista, que apesar de fechado para o lado de Joinville, estava lindo! De lá iniciamos a descida e lembramos do valor que botas novas, meias boas e unhas cortadas fazem (rsrsrs). A Cecilia que o diga, pois passou alguns perrengues ao longo da travessia com suas boots. Mas as guerreiras mandaram bala, e desde o início da trip as solas ficaram no lugar graças as fitas hellermans. Olha, descobrimos que são muito úteis para carregar consigo na montanha. E na descida as meias hi tech também ajudaram as botas em seus últimos suspiros. 
Chegamos no estacionamento do seu Harry as 15h e 30 min, lá comemos alguns pastéis de palmito e tomamos algumas cervejas para comemorar a trip. 
A maioria de nós se conheceu nessa travessia, e foi realmente um prazer passar estes momentos juntas. Valew parceiras montanhistas do PR, SC e AR. Valeu o esforço, parceria e conquista!

Travessia Araçatuba - Monte Crista



14 de fevereiro de 2017

Campo Escola - Anhangava

Anhangava

O Anhangava é uma montanha de 1.430 metros de altitude localizada na Serra do Mar paranaense. Um dos grandes destinos para os praticantes da escalada em rocha, é considerada um excelente "Campo Escola", haja visto a grande quantidade de vias  de baixa e média graduação em diversas técnicas e estilos, inclusive foi nessas paredes onde o termo campo escola foi cunhado, nos idos da década de 40.

Via Quarto Mundo (4. Vsup) - Setor campo das panelas.
Quem escala nessas paredes pode literalmente sentir na pele a abrasividade do granito e sua excelente textura. As vias exigem do escalador uma técnica apurada, principalmente a partir do 6. grau, onde a inclinação aumenta e as agarras diminuem. Saber usar bem os pés e aproveitar ao máximo a aderência da rocha é fundamental. Sem dúvida essa montanha favorece o aperfeiçoamento da técnica a um alto nível, onde de nada adianta ser forte, se não souber se posicionar adequadamente, para então "levitar" no granito. 


Granito anhangava

Via Sai de Baixo (4. Vsup) - Setor campo das panelas
A montanha está inserida dentro do Parque Estadual da Serra da Baitaca e segue um processo de recuperação da biótica original. As trilhas de acesso e bases de vias seguem sendo monitorados e recuperados, principalmente pelos montanhistas frequentadores, que volta e meia fazem intervenções para conter a erosão, podas de espécies invasoras entre outras ações. Na parte de baixo, junto das estradas de acesso, fazendo divisa com o limite do parque, formou-se uma comunidade de moradores, em sua maioria montanhistas frequentadores desses espaços que alem de proteger e conservar a região, fomenta a cultura alternativa do montanhismo.


Via Solanjaca (Vsup ) - Setor RS

Via Peon (IIIsup)
A face rochosa onde encontram-se a maioria dos setores, está voltada no quadrante norte-oeste, no reverso da serra, esse fato faz com que as paredes sejam bem ensolaradas e protegidas da umidade que sobe a serra vinda do oceano. Esse fator, junto ao vento praticamente constante, faz com que as paredes sequem bem rápido e deem condições de escalar mesmo em dias um pouco chuvosos ou logo após uma trovoada de verão. Porém a melhor época é sem dúvida no inverno, onde a estiagem normal dessa temporada, deixa as condições perfeitas para escalada, vá preparado pra passar frio!!

Via Andorinhas (IIIsup)
Via Chaminé do Corvo (III grau)

Fissura de Mão da Caverna (V grau)

O grande diferencial desse belo setor é sem dúvida a grande disponibilidade de vias fáceis, como já citado, mas não se engane pensando que é só isso, o morro conta com muitas vias acima do 7. e 8. graus e inclusive alguns 9.que requerem uma técnica apurada, assim como saber levitar em agarras diminutas. Vias realmente difíceis de mandar, que exigem muita precisão nos movimentos, tensão corporal e uma dose de desenvoltura tipica da escalada em granito. E para completar, há no local uma infinidades de boulders, desde lances fáceis até muito difíceis, diversão garantida para que curte escalar apenas de sapatilha. 

Para reforçar o termo "campo escola", gerações de montanhistas usaram e ainda usam essas paredes para treinar a fim de escalar no Marumbi, outra grande montanha localizada na serra do mar paranaense, mas essa fica pra outra postagem.

Vejam mais fotos clicando aqui e aqui também =] 

Boas Escaladas!!!



Vida boa!!!

O granito e sua textura